O panorama completo que a aula só pôde apontar.
Na aula ao vivo trabalhamos três tipos de paralelismo e alguns tipos de salmo. Aqui o panorama se abre por inteiro: sete tipos de paralelismo, sete famílias de salmo, a estrutura do Saltério e o repertório de imagens da poesia hebraica. Cada termo técnico vem explicado na primeira vez que aparece, e toda referência foi conferida no capítulo 8 de Grant Osborne. Leia com a Bíblia ao lado, do jeito que esta poesia pede.
Nenhuma parte das Escrituras é mais lida do que os Salmos, e poucas são tão maltratadas no púlpito. O problema não é falta de devoção. É um método importado do lugar errado. Quem aprendeu a estudar a Bíblia nas epístolas de Paulo se acostumou a pesar cada palavra, a abrir o dicionário grego, a extrair doutrina de uma preposição. Isso funciona muito bem em Romanos. Aplicado a um salmo, produz desastres. A poesia hebraica não foi feita para ser destrinchada palavra por palavra. Ela foi feita para ser ouvida inteira.
Osborne é direto nesse ponto. Os estudos de palavras não são tão determinantes em Salmos como nas epístolas, e o significado vem mais do todo do que das partes. Essa é a chave que organiza este caderno inteiro, e por isso ela aparece logo aqui, em destaque, antes de qualquer outra coisa.
Num salmo, o todo é a chave para as partes, e não o contrário. O verso solto só revela o que quer dizer quando lido dentro do poema inteiro. Inverter essa ordem é a fonte do erro número um na pregação de poesia: superinterpretar uma imagem isolada e carregá-la de um peso teológico que o contexto não autoriza.
O exemplo clássico está no Salmo 103.3: "Ele é quem perdoa todas as tuas iniquidades, quem sara todas as tuas enfermidades". É comum ouvir a segunda linha pregada como promessa universal de cura física, garantida a todo crente. Mas o paralelismo aqui é forte, e os dois pares de palavras, perdoar e sarar, iniquidades e enfermidades, funcionam como sinônimos espirituais ao longo das Escrituras. No contexto do salmo, a cura em vista é a do pecado. Transformar essa linha numa garantia de saúde física é exatamente o que a regra de ouro proíbe: arrancar uma imagem do conjunto e fazê-la dizer mais do que o poema diz.
Guarde essa regra. Ela vai voltar em cada seção, porque cada ferramenta que veremos a seguir, do paralelismo às metáforas, dos tipos de salmo aos imprecatórios, existe para a mesma finalidade: ler o poema inteiro antes de concluir qualquer coisa.
A poesia não é um cômodo isolado da Bíblia. Ela atravessa quase todos os outros, e ignorá-la é deixar de lado cerca de metade do Antigo Testamento.
Por muito tempo, as traduções imprimiam apenas os Salmos em forma de verso, e o leitor comum ficava com a impressão de que poesia bíblica era sinônimo de saltério. Não é. A poesia aparece em três grandes territórios. Primeiro, os livros reconhecidamente poéticos: Salmos, Provérbios, Jó, Lamentações e o Cântico dos Cânticos. Segundo, livros proféticos inteiros escritos em verso, como Oseias, Joel, Amós, Obadias, Miqueias, Naum, Habacuque e Sofonias, além de extensas partes de Isaías e Jeremias. Terceiro, cânticos encravados no meio da narrativa, como o cântico de Moisés à beira do mar (Êx 15.1-18), o cântico de Débora (Jz 5), a oração de Ana (1Sm 2.1-10) e a lamentação de Davi por Saul e Jônatas (2Sm 1.19-27).
Some tudo isso e se chega a uma conclusão que costuma surpreender: há muito mais poesia no Antigo Testamento do que nos livros que chamamos de poéticos. A poesia é, na prática, uma técnica retórica que perpassa os gêneros, tão importante na literatura sapiencial quanto na profética. Quando Deus quis que algo fosse lembrado e sentido, com frequência fez isso vir em forma de poema.
A poesia hebraica não era recreativa, e sim funcional na vida da nação e na sua relação com Javé. Ela cumpria duas funções. Uma de adoração, mediando o encontro entre o povo e Deus no culto do templo e da sinagoga. Outra didática, para gravar no povo as suas responsabilidades diante de Deus. Os salmos não eram um acessório do culto, como os hinos costumam ser hoje. Eram o ponto central dele. E não foi por acaso que tantas declarações proféticas vieram em verso: a forma poética se grava na memória e carrega mais força emocional do que a prosa.
Os 150 salmos não foram jogados juntos ao acaso. Há uma arquitetura por baixo da coletânea, e percebê-la ajuda a ler cada salmo no seu lugar.
O ponto de virada nos estudos modernos veio em 1985, com a obra de Gerald H. Wilson, The Editing of the Hebrew Psalter (A edição do saltério hebraico). Usando paralelos de outras culturas do antigo Oriente, Wilson mostrou que o saltério foi cuidadosamente editado, e não montado de qualquer jeito. A divisão mais visível dessa edição são os cinco "livros" em que os Salmos se organizam. Cada um deles termina com uma doxologia, uma fórmula de louvor que fecha a coleção como um carimbo.
É uma breve fórmula de louvor a Deus, em geral começando com "Bendito seja o Senhor". No saltério, ela funciona como um marco de fim de seção. Encontre a doxologia e você achou a costura entre dois livros.
| Livro | Salmos | Marca de fechamento e ênfase |
|---|---|---|
| Livro 1 | Sl 3 a 41 | Centrado em Davi e nas petições por proteção contra os inimigos. Fecha em Sl 41.13. |
| Livro 2 | Sl 42 a 72 | Davi e os filhos de Coré, a família encarregada da música do templo. Fecha em Sl 72.18-19. |
| Livro 3 | Sl 73 a 89 | Sobretudo de Asafe, uma série de lamentos sobre o rompimento da aliança e o triste estado da nação. Fecha em Sl 89.52. |
| Livro 4 | Sl 90 a 106 | A esperança renovada de que Javé reina e age por seu povo. Moisés ocupa lugar central. Fecha em Sl 106.48. |
| Livro 5 | Sl 107 a 145 | O livramento das dificuldades e os cânticos de ascensão rumo a Jerusalém. Fecha em Sl 145.21. |
O Salmo 1 e o Salmo 2 servem de introdução ao conjunto, e os Salmos 146 a 150 funcionam como uma conclusão de puro louvor. Há uma tradição antiga, ainda repetida hoje, de ler os cinco livros dos Salmos como um espelho dos cinco livros do Pentateuco. É uma leitura interessante, e se ajusta bem aos temas de cada seção, mas convém tratá-la com equilíbrio: ela combina, embora não possa ser provada. O mesmo vale para a proposta de ler os cinco livros como uma história temática de Israel, do conflito de Davi com Saul até o louvor pelo retorno do exílio.
Cento e dezesseis dos cento e cinquenta salmos trazem um título, também chamado sobrescrito. São aquelas linhas que aparecem antes do versículo 1, com informações sobre autor, ocasião histórica e indicações musicais. Podemos confiar neles como dados históricos? A resposta de Osborne é uma confiança cautelosa, e vale entender por quê.
É a inscrição colocada no alto de um salmo, acrescentada depois de sua escrita. Traz até cinco tipos de dado: o autor ou a pessoa associada ao salmo, o pano de fundo histórico, anotações musicais (como "de acordo com o gitite"), comentários litúrgicos e o tipo de salmo (por exemplo, "cântico de degraus"). Quatorze deles trazem notas históricas ligadas à vida de Davi.
Há boas razões para não descartá-los. Muitos salmos atribuídos a Davi não têm sobrescrito histórico, o que seria estranho se esses títulos fossem invenção tardia de quem queria encaixar cada salmo numa cena. Vários salmos dentro dos livros históricos trazem sobrescritos parecidos, normalmente aceitos. E títulos do tipo são comuns nos hinos sumérios, acádios e egípcios, o que mostra que a prática pertencia ao mundo antigo. Por outro lado, há motivos para cautela: os títulos diferem entre o Texto Massorético e a tradução grega, e a pequena partícula hebraica lè é ambígua, podendo significar "de", "para", "referente a" ou "dedicado a". Como observa VanGemeren, nem sempre dá para saber se um salmo foi escrito por Davi, sobre Davi ou dedicado a Davi. A conclusão equilibrada: aceite os sobrescritos como prováveis portadores de material confiável, sem supor que sempre saberemos o que eles querem dizer.
Se a métrica hebraica continua sendo um enigma até para os especialistas, o paralelismo é acessível a qualquer leitor atento. Ele é o coração da poesia bíblica, e dominá-lo é metade do caminho.
É a técnica em que duas (às vezes três ou mais) linhas se correspondem, de modo que a segunda retoma a primeira de alguma forma: repetindo, avançando, contrastando ou completando. A unidade básica da poesia hebraica não é a rima nem o número de sílabas, e sim esse jogo entre linhas paralelas, que chamamos de estrofe quando agrupadas.
Em 1750, o bispo Robert Lowth propôs os três tipos clássicos, que você viu na aula: sinonímico, sintético e antitético. A tabela abaixo abre o leque para os sete tipos que a poesia de fato emprega. Use-a como página de consulta.
| Tipo | O que a segunda linha faz | Exemplo |
|---|---|---|
| Sinonímico | Repete a ideia da primeira linha com pouco ou nenhum acréscimo, só ênfase."Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui conforme as iniquidades." | Sl 103.10 |
| Sintético ou progressivo | Avança o pensamento: a segunda linha acrescenta uma ideia nova à primeira. É a forma dominante.A árvore dá fruto, a folha não murcha, tudo prospera. | Sl 1.3 |
| Antitético | Contrasta: a segunda linha afirma o oposto da primeira, e o contraste é o sentido."Uns confiam em carros, outros em cavalos; nós, no nome do Senhor." | Pv 1.7 · Sl 20.7 |
| Culminante | Várias unidades sobem degrau a degrau até um clímax. Por vezes a segunda linha repete uma palavra-chave e acrescenta o ápice."Dai ao Senhor... dai ao Senhor... dai ao Senhor a glória devida ao seu nome." | Sl 29.1-2 |
| Introvertido ou quiástico | Dois pares de linhas se espelham na ordem A-B-B-A: as pontas externas conversam entre si, e as internas também. | Sl 30.8-10 |
| Incompleto | Omite no segundo verso um elemento que estava no primeiro, deixando que o leitor o complete."Do Senhor é a terra... o mundo e os que nele habitam." (falta o verbo) | Sl 24.1 |
| Variante de equilíbrio | Como o incompleto, omite um elemento, mas compensa o espaço acrescentando uma ideia nova no lugar."Livrou-me do forte inimigo, e dos que me odiavam, porque eram fortes demais para mim." | Sl 18.17 |
Por mais de dois séculos, o sistema de Lowth reinou. Nas últimas décadas, porém, um número crescente de estudiosos, com destaque para James Kugel, Robert Alter e Tremper Longman, passou a contestar a ideia de que existiria um paralelismo puramente sinonímico, em que a segunda linha apenas repete a primeira. O argumento é forte: tratar as duas linhas como dizendo a mesma coisa achata o verso poético e o reduz a prosa, nas palavras de Longman. A tese que ganhou consenso é que a segunda linha quase sempre acrescenta algo, mesmo que seja apenas ênfase ou um leve avanço de sentido. Alter resume bem: há um movimento dinâmico de um verso ao seguinte, e é assim que os poetas esperavam que o público prestasse atenção às suas palavras.
Osborne adota essa leitura, mas com um freio importante. A escola nova também pode exagerar, ao afirmar que existe "sempre" um avanço. Há sim casos raros, como em partes de Isaías 53.5 ou Provérbios 3.14, em que a segunda linha não acrescenta nada de novo além de tornar a primeira mais vívida, e a classificação de sinonímico continua válida. A lição prática não é decorar rótulos, e sim deixar que cada par de versos diga onde se situa na escala que vai do sinonímico ao sintético. O contexto, como sempre, decide cada caso.
A poesia hebraica não tinha uma forma só, porque a vida de fé não tem um tom só. Cada situação da alma pedia um tipo de cântico. Saber o tipo é o primeiro passo para interpretar qualquer salmo.
| Tipo | Descrição e função | Referências |
|---|---|---|
| Lamento | O tipo mais comum, com mais de sessenta salmos. A pessoa (lamento individual) ou a nação (lamento coletivo) clama sua angústia a Deus. Não apenas encoraja: é modelo de oração para quem sofre. | Sl 3; 13; 22; 51 · coletivos: 44; 74; 79; 137 |
| Hino ou cântico de louvor | O mais próximo da pura adoração. Não nasce da necessidade, mas da alegria de adorar Javé como Criador, como Protetor de Israel e como Senhor da história. | Sl 8; 19; 104; 148 · Hallel: 113 a 118 |
| Ação de graças | Louva a Deus pela resposta a uma oração específica. É o "depois" do lamento: onde o lamento põe o problema diante de Deus, a ação de graças o louva pela solução. | Sl 18; 30; 32; 116; 138 · Jonas 2 |
| Celebração e afirmação (salmos reais) | Celebram a aliança de Deus com o rei e a nação: coroação, entronização e os cânticos de Sião, a cidade santa. Trazem implicações messiânicas, mas devem ser lidos primeiro no seu sentido histórico. | Coroação: Sl 2; 72; 110 · Entronização: 47; 93; 95 a 99 · Sião: 46; 48; 84; 122 |
| Sabedoria e didáticos | Equivalem aos Provérbios em verso: celebram a sabedoria como dom de Deus e contrastam o caminho do justo com o do ímpio. Os salmos da Torá pertencem aqui. | Sl 1; 37; 49; 73 · Torá: 1; 19; 119 |
| Imprecatórios | Em geral lamentos, mas dominados pela amargura e pelo desejo de que Deus julgue os inimigos. O caso difícil da poesia, tratado em detalhe no próximo bloco. | Sl 35; 69; 83; 109; 137; 140 |
| Cânticos de guerra e de amor | Entre as formas mais antigas estão os cânticos de vitória, em que a glória pertence a Javé. À parte, os cânticos de amor, cujo grande exemplo é o Cântico dos Cânticos. | Guerra: Êx 15; Jz 5 · Amor: Cântico dos Cânticos |
Como o lamento é o tipo mais frequente, vale conhecer sua anatomia. John Hayes identificou sete elementos que costumam aparecer na estrutura desses salmos. Poucos salmos contêm todos os sete, mas juntos eles formam o esqueleto do lamento. Repare como o movimento parte do desespero e chega, quase sempre, ao louvor.
O clamor inicial, muitas vezes cru, como o "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" do Salmo 22.1.
A dor exposta em linguagem figurada: leões, lamaçal, a alma cercada (Sl 57.4; 69.2).
O pedido direto de libertação, e às vezes de juízo sobre os inimigos (Sl 3.7).
Uma afirmação de confiança em Javé no meio da tempestade (Sl 12.7).
Conforme o caso, o salmista reconhece a culpa (Sl 25.11) ou declara que está limpo diante de Deus (Sl 17.3-5).
O voto de fazer algo se Deus atender, muitas vezes lembrando a Deus os compromissos da aliança (Sl 56.12; 74.18).
O fecho, em forma de louvor antecipado ou de renovação do pedido (Sl 57.11; 80.19).
A poesia pensa por imagens. Ela não explica a verdade, ela a pinta. Entender como essas imagens funcionam é entender como o salmo significa.
Os salmistas usaram o arsenal inteiro da arte verbal. Além do paralelismo, lançaram mão de recursos de som que muitas vezes se perdem na tradução, mas que estavam no centro da composição. Vale conhecer os principais.
A paronomásia é o jogo de palavras, em que termos de som parecido e sentido diferente se chocam para criar efeito. A aliteração repete a mesma letra ou som no início dos versos. O acróstico é o poema cujos versos começam com as letras do alfabeto em sequência. A assonância aproxima palavras que soam de forma semelhante.
O exemplo mais célebre de paronomásia está em Isaías 5.7, e é um soco que só quem lê hebraico sente por inteiro. Deus esperava juízo, mishpat, mas veio derramamento de sangue, mispah. Esperava justiça, tsedaqah, mas veio um grito de socorro, tse'aqah. As palavras quase se confundem no som, e a quase identidade sonora torna a distância moral ainda mais cortante. O Salmo 119 é a vitrine do acróstico: cada uma de suas estrofes começa com uma letra sucessiva do alfabeto hebraico, e dentro de cada estrofe todos os versos começam com a mesma letra. A assonância aparece em Jeremias 1.11-12, onde Deus mostra ao profeta um ramo de amendoeira, shaqed, e promete estar vigiando, shoqed, o seu povo. O som carrega o sentido.
O território mais rico da poesia é a metáfora, e nenhuma é mais fértil do que as usadas para descrever Deus. O salmista não define Deus, ele o retrata, e cada retrato abre uma porta diferente de adoração.
Quando o salmista pede "embraça o escudo e o broquel e levanta-te em meu socorro" (Sl 35.2), a imagem do guerreiro que luta ao lado do seu povo acrescenta uma camada inteira de significado ao pedido de ajuda. Cada uma dessas imagens é um exemplo esperando para ser desvelado no púlpito.
Aqui está o ponto que separa o bom intérprete do moralista apressado. A metáfora não é a embalagem decorativa de uma ideia que poderia ser dita de forma mais simples. A metáfora é o próprio sentido. Por isso Osborne distingue o "significado literal" do "significado pretendido". O que importa não é o que a imagem diz ao pé da letra, e sim o que ela pretende comunicar dentro do poema.
Nenhum tipo de salmo gera mais constrangimento no púlpito do que este. E nenhum se torna mais libertador quando finalmente entendido.
Vem de "imprecação", que é uma maldição ou um pedido de juízo contra alguém. Os salmos imprecatórios são, em geral, lamentos em que predomina a amargura do salmista e o desejo de que Deus julgue os seus inimigos. São eles: Sl 12; 35; 52; 57 a 59; 69; 70; 83; 109; 137; 140.
O caso mais chocante é o Salmo 137.8-9, que termina com "feliz aquele que pegar os teus filhos e os despedaçar contra a rocha". Frases assim ferem a sensibilidade moderna e levam muita gente a duvidar do padrão ético dos escritores bíblicos. Como pregar um texto desses sem traí-lo, e sem traí-lo no sentido oposto, fingindo que ele não está ali? Quatro observações reorganizam o problema.
O salmista não está saindo para vingar-se. Ele está derramando a sua queixa diante de Deus, como em meio ao trauma do exílio no Salmo 137. A imprecação é uma oração, não um plano de ação.
Ao entregar a vingança a Deus, o salmista responde ao próprio mandamento divino de Deuteronômio 32.35, citado por Paulo em Romanos 12.19: "Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor". Pedir que Deus julgue é o contrário de tomar a justiça nas próprias mãos.
Como observam Fee e Stuart, o autor pede um juízo com base nas maldições já previstas na aliança (Dt 28; 32.25), que anunciavam a destruição dos transgressores. Ele não inventa uma punição: invoca a que Deus mesmo prometeu.
A hipérbole, o exagero deliberado, é comum nessas passagens carregadas de emoção. Ler a imagem como um programa literal é o mesmo erro de sempre: confundir o significado literal com o pretendido.
É o exagero intencional, usado para expressar a intensidade de uma emoção, e não para ser tomado ao pé da letra. Quando o salmo traumatizado pela guerra fala em despedaçar filhos, a linguagem mede o tamanho da dor, não prescreve um ato.
O resultado é que esses versos não contradizem o Novo Testamento que manda amar os inimigos. Pelo contrário. Quando a vítima despeja a sua amargura natural diante de Deus, transferindo a ele a vingança, ela fica livre para amar o inimigo, exatamente o movimento de Romanos 12.19-20. Há aqui um valor pastoral profundo, e até terapêutico, para quem sofreu trauma, como uma vítima de abuso. Entregar a Deus o ódio que se sente é o caminho para se libertar dele. Vale lembrar que o mesmo Davi que escreveu quase todos esses salmos mostrou enorme clemência por Saul, o homem que tentou matá-lo. Quando se clama por justiça depois de uma ferida profunda, do jeito dos mártires que clamam debaixo do altar em Apocalipse 6.9-11, cumpre-se Romanos 12.19, porque a vingança é de fato transferida para Deus.
Toda a teoria deste caderno se resume num punhado de passos práticos. Este é o checklist de Osborne para sentar diante de um salmo e estudá-lo do jeito certo.
A estrutura é o primeiro passo. As traduções recentes já separam os versos paralelos e deixam um espaço entre as estrofes. O melhor sinal de uma nova estrofe é a mudança de ideia. No Salmo 31, por exemplo, a primeira estrofe é a súplica por ajuda, a segunda a declaração de fé, a terceira a reclamação.
O poeta pensa em unidades inteiras. Caminhe na linha tênue entre superinterpretar versos individuais e supor sinonímia toda vez que as ideias se parecem. Os três versos do Salmo 23.2-3 formam uma só unidade e devem ser lidos juntos.
Em poesia, a linguagem figurada é mais densa do que na prosa. O Salmo 19 não pretende ensinar cosmologia, e "elevo os meus olhos para os montes" (Sl 121.1) não quer dizer que Deus mora lá. Deixe a estrutura mostrar como cada metáfora se encaixa na mensagem do todo.
Em muitos casos ele vem no título tradicional do salmo. Trate os títulos como tradições geralmente confiáveis, conferindo a nota histórica pelo contexto. A maioria dos casos se ajusta bem ao sobrescrito.
Lamento, louvor e salmo real se interpretam de formas diferentes. As declarações sobre Deus e a sua relação com o povo mudam de tipo para tipo, e a aplicação para hoje muda junto.
Salmos como o 2, o 22, o 72 e o 110 têm dimensão messiânica, mas também falam primeiro das circunstâncias históricas de Davi. Interprete primeiro o significado pretendido pelo autor no seu tempo, e só depois o sentido canônico e messiânico.
O fluxo de ideias do salmo é a chave do seu significado. Depois de examinar a estrutura e os detalhes, volte e refaça o todo antes de fechar qualquer interpretação. É ainda mais verdadeiro na poesia do que na prosa: o todo é a chave para as partes.
Repare que o último passo é a regra de ouro com que começamos. Tudo converge para ela. Quem lê o salmo inteiro antes de concluir já evitou o erro número um da pregação de poesia.
Tudo o que você leu aqui pode ser verificado. Estas são as obras e os autores que sustentam cada afirmação deste caderno.
Os estudos de palavras não decidem o sentido de um salmo como decidem o de uma epístola. A exegese da poesia é holística: lê-se a parte sempre à luz do conjunto, e a teologia deriva do salmo inteiro, não da imagem solta.
A Palavra merece
o melhor do seu preparo.